sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Sobre o 20 de Novembro; QUANDO ROUBARAM O MEU ITAN - Por Itan Cruz

Me chamo Itan (que vem do yorubá e significa "História"). Meu pai, homem negro, me deu este nome. Até aí seria comum, se ele não fosse negro e tivesse posto este nome no primeiro filho só por ter achado "bonito", sem saber o que realmente significava. Haviam roubado do meu pai a sua história, o seu "itan".

Ainda criança, me deparei com uma situação constrangedora, quando em uma festa à fantasia da escola tive que me fantasiar de Aladin, por não conhecer nenhum outro herói negro nos desenhos que assistia na TV. Cresci no interior da Bahia, onde o racismo age de forma sutil, velado. Passei no vestibular como cotista e vim estudar em Salvador. A esta altura já tinham me convencido ser contra as políticas afirmativas. Afinal de contas, elas seriam "racistas". Aqui, em uma das cidades mais negras do Brasil, pude ter encontros com o racismo face a face. Coisas do tipo "a mistura não deu certo", "esse moreno aí", foram frases que enfrentei meio sem jeito e com nenhum preparo. Não haviam me apresentado o racismo em toda a sua violência e crueldade. Aprendi na experiência. Me formei em 2013 no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades na UFBA. Então decidi olhar para trás. Vi que haviam roubado do meu pai o direito de saber o significado do nome do seu filho, que tem as origens em África, terra da qual vieram nossos ancestrais. Vi que o lápis de cor da escolinha, que eu chamava "cor de pele", era para pintar representações brancas, o que excluía a mim e aos meus semelhantes de terem cores mais escuras identificadas como uma cor legítima de pele. O Aladin poderia ser até legal, mas não me representava. Não era como eu: negro. Vi que haviam roubado toda a minha História e a do meu povo.

Decidi cursar História. Fui tendo consciência da minha negritude com o passar do tempo na universidade. Reconheci a minha consciência negra. E quero dizer que estou na universidade por cada um/uma negro/negra que não pode (ainda) estar lá. Estou lá pelo meu pai, que mesmo sem saber, por sorte da vida, me deu um nome como o que tenho, estou lá pela minha ancestralidade escravizada que desceu do litoral ao sertão, para dar conta das fazendas de gado. A todos/todas, mas especialmente aos meus irmãos de cor, muito axé e muita luta!

Barroquense, Itan Cruz é formado pelo Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, graduando em História (Bacharelado e Licenciatura) pela UFBA

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