terça-feira, 30 de agosto de 2016

“Eu não podia deixar de votar naquela mulher" Por Itan Cruz

Itan Cruz -  Foto Reprodução Facebook
Na segunda-feira (29), em postagem no Facebook, o barroquense Itan Cruz nos premiou com mais um belo texto, escrito certamente com o coração. O futuro historiador relata uma cena que presenciou na última eleição presidencial na qual Dilma Rousseff foi reeleita.
     
Leia:
“EU NÃO PODIA DEIXAR DE VOTAR NAQUELA MULHER!”

Quando se é mesário, estamos expostos, sobretudo, a enxergar a maneira como o povo se comporta durante a sua participação no maior ritual democrático formal do país: as eleições.

Ficaram na memória aquelas e aqueles que, significando a falta de instrução formalizada com vergonha, pude direcionar o polegar sobre o papel. Tentei contextualizar todas e todos eles, no sentido de não ter que haver constrangimento algum. Ali, o peso do voto deles tomava a mesma medida que o de qualquer doutor, de qualquer patrão. Entretanto, houve um caso que não necessitou de contextualização alguma.

Já passava das duas da tarde. O sol a pino desencorajava aquelas e aqueles que, no agreste baiano, não tinham exercito o seu poder de voto. A escola, onde se localizava a seção da qual fiz parte se encontrava em plena tranquilidade. Poucos instantes depois, a sala na qual eu estava foi tomada, toda ela, por uma mulher. Era negra, de aparência humilde, vestia uma blusa vermelha e toda uma vontade cheia de alegria em votar. Devido ao sol, trazia o corpo suado. Direcionou ansiosa o dedo sobre o papel depois de apresentar a documentação necessária. A moça havia caminhado cerca de 6 km a pé só para votar. Veio com gosto. Ainda sorria e não esboçava o menor cansaço. “Não podia deixar de votar naquela mulher!” Se dirigiu à urna. Digitou com uma certa lentidão as teclas (e tinha beleza em toda sua lentidão). Levantou os braços em comemoração à sua esperança e sua igualdade perante os outros votos que ali foram computados e os que ainda haveriam de ser. Saiu como entrou: sorridente. Ao receber o RG já surrado pelo tempo ou pelo uso, repetiu: “eu tinha que votar nela!”

Agradeci em pensamento pela oportunidade de ter testemunhado tudo aquilo. Mas hoje me pergunto como estarão as duas mulheres que a vida fez cruzar em uma urna. Por um lado, Dilma, por outro, uma eleitora humilde, anônima, juntamente com milhões que estão tendo suas esperanças roubadas, golpeadas. Não me recordo seu nome. Talvez Maria, ou Joana, ou ainda Luzia, dentre tantos outros milhões de eleitores devam estar agora à frente da televisão vendo seus votos esvaírem a revelia do ritual democrático. 

Por Itan Cruz - Formado pelo Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, graduando em História (Bacharelado e Licenciatura) pela UFBA - Mestrando em História na Univercidade Federal Fluminense

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