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sábado, 29 de junho de 2019

Depois de um animado São João, é hora de pegar a estrada. Trabalhadores barroquenses e a saudade antes mesmo da partida.

Carpinteiro Hamilton Teles e seu filho Davi Lucas - Foto: Victor Santos
Com importante participação no desenvolvimento do comércio local, responsáveis por aquecer as vendas em épocas de festas, com destaque para o período Junino e Réveillon, são nessas 'datas' que os trecheiros, a maior classe de trabalhadores formais do município de Barrocas, aproveitam para estarem junto com a família durante alguns dias. 

O regresso à terra natal, acontece com a liberação das empresas, a maioria de construção civil. São as chamadas "baixadas", as férias dos trecheiros, que possibilitam a oportunidade deles retornarem para 'matar a saudade'. A história retratada na letra da canção "lamento de um nordestino" de Frank Aguir e Francis Lopes, descreve um pouco da realidade de milhares de brasileiros, quando cita; "ele sofre quando tem que ir embora... A família toda chora, Mas não pode mas ficar", diz a letra em analogia à decisão de escolher viajar, ou como dizem, 'ir para o trecho', na busca pelo sustento da família e do crescimento profissional. 

No estado de Minas Gerais, mais precisamente no pacato município de Serra do Salitre, com pouco mais de 10 mil habitantes, concentra-se um complexo minério-industrial, que logo será complementado por uma fábrica de fertilizantes (em construção). É nesta obra, classificada como construção civil pesada, dentre tantos barroquenses, que trabalha Hamilton Teles, de 38 anos. 

"A gente tá longe, e já fica esperando chegar o São João. Sempre alguém manda uma foto da praça, da arrumação e ficamos na expectativa de chegar. Aqui aproveitamos o tempo curto pra ficar mais perto da família, dessa terra que amo. Se eu pudesse, nem saia, mas é questão de trabalho, por isso a família entende", explica o operário da área de carpintaria. Função; corte, armação e reparo em peças de madeira para confeccionar conjuntos ou peças para edificações dentro da obra. Hamilton chegou em Barrocas no dia 21 de junho, após percorrer 1.500km (mil e quinhentos quilômetros) de Salitre até Barrocas: "as pessoas falam que nós barroquenses somos apaixonados, eu disse aos pernambucanos (colegas de trabalho) que se apaixonar seria quando eles passassem pela cidade. Depois que eles viram, parabenizaram a nossa cidade, que realmente tá muito bonita" reconheceu com felicidade o trabalhador. 


Gabriel ao lado do filho Bernardo
A passagem do barroquense foi curta, durou menos de 10 dias, embora rápida, Hamilton garante que está feliz por ter aproveitado junto com a família: "Fizemos a fogueira no dia 23 na casa da minha mãe, todo ano é tradição, quando eu estou, eu mesmo acendo. No dia 24, fomos pra casa de meu compadre João Batista" contou. 


Em todo complexo da Serra do Salitre, há um efetivo de aproximadamente 3.000 pessoas trabalhando, sendo 1.400 operários da empresa ConstruCap, todos se dividem no enorme canteiro de obras. Hamilton retorna para Minas Gerais já neste domingo (30), para dia 1 de julho se apresentar na empresa. 

Outro barroquense, o jovem Gabriel Firmo, 22 anos, trabalha na montagem de sistema de monitoramento de barragens em Vazante, também em Minas Gerais. O município é considerado como a 'Capital Nacional do Zinco'. Para ele a administração municipal e a população estão de parabéns em recepcionar bem os filhos da terra no período junino: "É o festejo mais esperado do ano, a gente pai de família que trabalha fora, chegar e vê esse cenário, ornamentação e a festa boa. A pessoa se sente entusiasmado pra voltar," afirmou. Sobre a cidade onde está vivendo, Gabriel comentou que lá não são comuns as comemorações juninas: "Não acha essa tradição de fogueira, milho e comidas típicas na cidade que eu trabalho". 

Conviver com a saudade e enfrentar a distância da terra natal é apenas algumas das várias dificuldades vivenciadas no dia-a-dia dos chamados trecheiros. Deixar a pequena cidade em busca do sustento, é a opção diante da ausência de postos de trabalho com remuneração adequada: "A gente se sente renovado de poder curtir com os familiares e amigos, mas sempre tem a parte 'ruim', a gente volta pra o serviço pra trabalhar longe de casa com o coração partido, mas nada disso é em vão. Vamos sabendo que sempre vai ter o retorno melhor ainda" afirmou Gabriel. 
@ Nossa Voz - Por Victor Santos / Colaborou Rubenilson Nogueira

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